Lápis

Onde está seu herói esquecido?

Eu não sei se Agosto é mesmo o mês do desgosto, mas tenho certeza de que num ano acontecem vários dias de desgosto. Tem dias que, logo ao amanhecer, você percebe que não serão fáceis. Algum pesadelo te faz saltar da cama com embrulho no estômago. Depois você descobre que o alarme não tocou e está atrasado, corre para o trabalho, o carro dá problema, trânsito irritante, contas para pagar, chefe ligando insistentemente no celular, reuniões chatas, desempenho insatisfatório no trabalho, esposa e família cobrando mais atenção… Enfim, você não tem tempo e força para nada.

São tantas os obstáculos, dificuldades e revezes na sua vida, que a única coisa que você mais deseja é pegar uma nave espacial para outra galáxia, sumir do mapa e jogar tudo para os ares. Senti tudo isso ontem, mas resolvi tomar um ar puro, passear num parque e pensar sobre a vida. Caminhando por entre os jardins, lagos e trilhas desse parque, decidi parar perto de uma família que fazia um piquenique e encontrei, nas crianças que brincavam, a resposta de que eu precisava.

Eram dois meninos, chamado Ítalo e Pedro. Na verdade, eu só descobri suas “identidades secretas” após conversar com eles, pois ali estavam em minha frente, o Homem de Ferro (Ítalo) e o Homem Aranha (Pedro) destruindo o Doutor Octopus e o Monge de Ferro, respectivamente. Sim, isso mesmo! Aquelas crianças que atacavam impiedosamente seus inimigos imagináveis, sem tréguas ou descanso, estavam dispostas a tudo para vencer o “império do mal que desejava tomar o parque e aprisionar as pessoas” – segundo suas próprias palavras.

Por um momento pensei: “Aqueles meninos estão fazendo de tudo para salvar humanidade. Querem me salvar, quando eu estou aqui cabisbaixo, cansado e impotente diante de meus problemas”. Depois, escutei outra voz dizendo: “Você tá pirando, Marcos Sousa. Seus problemas são reais e você não é mais criança. Agora você é gente grande. Acorda!”. Meu diálogo interno estava tentando entender toda essa situação.

Rapidamente, lembrei-me dos heróis que fui quando criança. Ah! Também salvei o mundo muitas vezes. E você? Não vá me dizer que nunca colocou uma capa nas costas e se imaginou lutando e destruindo inimigos e monstros imaginários? Tenho um amigo que quebrou uma perna e uma costela tentando voar do teto da casa, quando tinha nove anos. Claro que na época ele colocou a culpa na Kriptonita! Conheço outro que colocava uma máscara nos olhos, tinha um chicote e riscava a letra Z no muro de todas as casas da rua.

Eu não era diferente daquelas crianças. Apenas cresci e me convenci de que os superpoderes que eu tinha na infância eram menores ou mais fracos do que os “problemas de gente grande”. Descobri também que fui me tornando cada vez mais fraco e passivo, esperando que alguém resolvesse os meus problemas. Aprisionei-me em alguma cela mental, culpei o mundo e resolvi jogar a chave fora, enquanto tantos outros heróis continuaram lutando, sangrando, suando e vencendo dificuldades, doenças e pesadelos maiores que os meus.

Naquele dia, cheguei perto de me tornar mais um covarde que não usa superpoderes e a baixar a cabeça para qualquer problema. Quantos homens de ferro estão vencendo uma cadeira de roda, paralisia infantil, cegueira, surdez, amputações, doenças mentais? Quantas mulheres maravilha estão vencendo a fome, violência doméstica, discriminação, miséria e exploração sexual?

Se meus problemas pareceram grandes diante daquelas crianças, eles agora parecem pequenos diante de outros que consomem parte ou toda a vida de muitos heróis anônimos. Talvez você ache que seus problemas são muito maiores do que os meus ou os das crianças, que vi no parque. Não estou aqui para comparar problemas. Tudo é questão de perspectiva. Até mesmo sua sombra pode parecer maior do que você, dependendo do ângulo da luz.

Se você perder a noção do herói que reside em você, desde criança, você perde tudo. No passado, seus superpoderes eram: uma capa mágica, escudo ou roupa blindada, capacidade de voar, subir paredes, correr na velocidade da luz, força para levantar um tanque… Agora eles são: fé, vontade, garra, integridade, coragem, pensamento positivo, persistência, motivação, resiliência, paciência… Você perdeu os da infância, mas não esses.

Você tem apenas um herói esquecido dentro de si. E só você pode libertá-lo. Arrisque-se a soltá-lo, junte-se a ele mais uma vez e perceba que seus problemas se tornarão pequenos. Repito: tudo é uma questão de perspectiva. Não diga a si mesmo e a Deus que tem grandes problemas. Diga aos problemas que você tem um grande Deus e um herói dentro de si. Lembre-se de que nos quadrinhos e desenhos, o herói sofre durante todo o episódio, mas no final, sempre vence.

O problema não está nos monstros reais que nos afligem dia a dia, mas na força e coragem que faltam em nossos pensamentos e ações. O problema não são os pesadelos que nos tiram da cama, mas no sono que resolvemos mergulhar nosso herói. Ele tá aí em algum lugar esquecido ou preso. Liberte-o e você perceberá a força que tem dentro de si. Heróis nunca se entregam, nunca desistem! Talvez você não consiga salvar o parque, ou o mundo, mas certamente salvará uma vida – a sua… Ah! Sabe quem tem certeza de que você é um herói? Seu filho! Essas crianças sabem tudo!

Cresça, mas não perca sua força!

17/08/2010

Marcos Antonio de Sousa, graduado em Engenharia Eletrônica e MBA em Administração de Marketing pela Fundação Getúlio Vargas (FGV). Especialista em vários cursos nacionais e internacionais de vendas para o mercado de segurança eletrônica. Practitioner em PNL. Atua como consultor de Marketing, Vendas e Estratégia Empresarial para as empresas do ramo de segurança. Consultor da Associação Brasileira das Empresas de Sistemas Eletrônicos de Segurança (ABESE). Conferencista em eventos realizados pela FENAVIST (Federação Nacional das Empresas de Segurança e Transporte de Valores). Colunista da Associação Brasileira de Profissionais de Segurança (ABSEG). Palestrante nos principais congressos, simpósios e eventos de segurança eletrônica e privada do país. Articulista no Jornal da Segurança e SegNews, nas revistas Proteger, Venda Mais, Infra, Segurança&Cia, SESVESP, Security, Higi Press (ABRALIMP) e Negócio Fechado (Japão). Autor do livro: Vendendo Segurança com SEGURANÇA.

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